O atraso, a mãe e o bebé

As portas de embarque já deviam ter sido abertas há mais de algum tempo e as pessoas estavam cada vez mais impacientes.

De repente, uma voz feminina com um registo mais grave do que normalmente se espera que saia de uma boca de mulher, anunciou poliglotamente que o nosso avião estava atrasado. Olha que novidade, pensou a maioria, unida pelo raciocínio e dividida apenas pelo idioma. Não pude deixar de pensar se o espírito da mensagem tinha variado de língua para língua, se o modo de se dizer que um avião está atrasado é mais simpático em alemão ou em flamengo, em francês, em espanhol ou em inglês. Em português ninguém foi avisado, talvez por se achar que nós temos uma maior facilidade em compreender outras línguas, ou então porque ninguém quer saber se as compreendemos ou não. Nem quando se trata de um avião que vai para o Porto nos são capazes de falar em portuguesinho. Nem assim.

Depois de os altifalantes se terem calado, o ambiente modificou-se e deixou de ser unitário. Agora, a multidão estava dividida entre aqueles que já estavam mais satisfeitos pelo simples facto de haver uma confirmação oficial daquilo que todos sabiam; e os outros que, precisamente por causa dessa comunicação, ainda estavam mais indignados porque só passado todo o tempo que passou é que alguém se tinha lembrado que havia uns portugas para ali esquecidos à espera de um avião para o Porto.

Eu continuei sentado na minha cadeira. Um romance qualquer estava a fazer-me companhia e, como estou convencido de que a Ryan Air faz os horários de propósito para que possam chegar antes do tempo previsto, não me incomodei muito. Avisei quem me iria esperar que havia atraso e isso bastou. A hora da chegada não seria, de certo, indecente.

Numa cadeira um pouco afastada, uma mulher ainda nova estava entretida com os sorrisos do seu filho bebé. Digo filho e não filha a julgar pelas cores da roupa que trazia, em várias tonalidades de um canónico azul.

A minha atenção ficou presa naquelas duas pessoas. A mãe, sentada, tinha o bebé à sua frente, também sentado, embora em cima da mesa, com as duas pernitas penduradas para fora dela e os dois bracitos a mexer em todas as direções vigorosamente. As mãos da mãe estavam a envolver-lhe a cintura, e o seu tronco, o da mãe, abanava-se para a frente e para trás, desencontrado com a sua cabeça, que se tentava mover nas direções opostas. O bebé estava deliciado com a situação, pelo menos foi assim que eu o interpretei, se é que nos é lícito interpretar o que se passa nas emoções de um bebé, que tanto chora por dores tremendas como por ter um bocadinho de fome ou porque alguém o senta num sofá, quase embrulhado por almofadas grandes, e ele preferia estar ao colo. Será o riso diferente? Saberá ele que se está a rir, ou tratar-se-á apenas de um reflexo a um estímulo que ele acha, à sua maneira, agradável? Não sei, mas, tendo em conta a coincidência entre os sorrisos da mãe e os dele, eu diria que ele estava, realmente, feliz, e que, no que à mãe toca, outro sentimento qualquer seria impossível.

Nunca percebi estas coisas. Nunca entendi os risos ridículos, as caras feias e os esgares cansativos, e a baba psicológica e física que estas coisas pequeninas e sem consciência de si próprias nos fazem escancarar, forçar e verter, respetivamente. Nunca percebi a admiração, a contemplação, os olhares maravilhados, a paciência, a dedicação, e tantas outras coisas que elas fazem despertar. Será graças ao milagre que é a vida? Será por estarmos a olhar para uma nova criatura e sentirmos o êxtase e o orgulho por termos sido capazes de a ajudar a gerar? Independentemente das palavras que se usem, a verdade é que que, durante um largo período de tempo que voou, aquele bebé acompanhou a sua mãe sem lançar uma única palavra, sem lhe contar uma única história ou pedir um conselho que fosse. Sem sequer lhe dar um beijo. A companhia consiste em, pura e simplesmente, lá estar, existir. Quantos outros tempos não passariam, ela e ele, sem notar que o tempo também passava? Que poderosos são os bebés! Têm o condão de nos tornar diferentes de nós próprios, que tão indiferentes e virados apenas na nossa direção somos.

É pena que aqueles que estão para aqui a resmungar com os atrasos, como se os atrasos se incomodassem um pouco que fosse, não reparem em ti, pequenino. Se o fizessem, ao menos durante um segundo ou dois, sorririam.

Eu, por exemplo, contagiado por aquela mulher e por aquela ainda nem criança, senti-me obrigado a levantar, pegar na mochila e ir à procura de um caderno que pudesse comprar, ao qual acrescentei uma esferográfica — coisa curiosa esta de podermos acrescentar uma esferográfica a um caderno — para me pôr a escrever acerca destas coisas que nunca percebi. Mas, já de volta ao meu lugar anterior, fui incapaz de escrever. Lembrei‑me de ti e da tua barriga que se vai arredondando devagar, empurrada pela vontade de crescer da nossa bebé. Estou a imaginar-te a amparar-lhe a cabecinha enquanto lhe dás de mamar; ou, se for eu, enquanto as suas mãozitas muito gorditas tentam aguentar com o biberão em pé para que ela o sugue com fúria.

O pequenino começou agora aos pontapés à mãe e ela ainda se ri mais para ele; e faz-lhe cócegas na barriga com a cara.

Tive de ir embora. O avião tinha chegado e as portas já estavam abertas. O romance que estava a ler ficou esquecido na cadeira.

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