Um Caminho, uma Verdade e uma Vida que obrigam a uma radicalidade rígida como sinal de reciprocidade de amor (Sobre a responsabilidade que temos relativamente à salvação dos outros.)

“Qual não será a alegria de quem se apercebe que foi, também, graças ao amor que os seus tiveram por si que a necessidade de espera antes de estar na eterna presença de Deus é menor? E também a nossa, naturalmente, ao percebermos que não há que ser limpo pelas faltas de caridade para os outros.”

Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. Não há na terra misericórdia mais sublime do que o que está enraizado em Cristo: a Sua Igreja.

Nós estamos a caminho. Nós damos, quer queiramos quer não, testemunho da Verdade: ou porque a afirmamos ou por contraste. Nós temos, ou deveríamos ter como objetivo de vida, a Vida. Até agora, apenas o caminho apareceu com minúscula, por ainda não ter sido usado com o sentido de Caminho, aquele que Jesus é.

Como continuidade histórica de Cristo na terra, a Igreja é o Caminho, assente na Verdade que é a perfeita doutrina revelada e que nos aponta na direção certa cujo destino é a Vida Eterna. Refiro-me aqui, naturalmente, à Igreja como instituição na sua dimensão cristológica, aquela que foi fundada em Pedro e contra quem o Mal não poderá prevalecer. A dimensão mais humana da Igreja, que somos todos nós, deverá ser tratada noutros termos. Jesus não nos fundou a nós sobre Pedro, não me instituiu a mim sobre Pedro. Instituiu a Igreja à qual nós, usando a nossa liberdade, aderimos por meio da Graça gratuita da Fé. 

A função da Igreja é, assim, levar as pessoas para o Paraíso, através de Jesus Cristo, o Caminho, através do que ensina, a Verdade, para alcançar a Vida na presença de Deus. Toda a rigidez que se possa ler nas coisas que digo partem de uma vontade de fidelidade que supera qualquer outro desejo ou temor. Eu, como membro dessa Igreja, partilho da mesma função no sentido em que devo trabalhar ativamente no mesmo objetivo. Se não o fizer, estou a falhar como membro. Mais, estou a usar a minha liberdade para infligir nela, na Igreja, graves danos, afetando, do mesmo modo, os outros membros.

Isto traz-me, então, ao assunto sobre o qual gostava de refletir: o papel participativo que temos no pecado dos outros e, também, no seu processo de salvação e a sua relação com as coisas que defendo e escrevo.

Antes de começar, porém, é importante esclarecer a quem me dirijo: àqueles que partilham comigo a mesma e única verdadeira Fé. Neste grupo, incluo-me a mim também, como o presente texto deixará bem claro. E não há nada de paradoxal ou de hipócrita em recomendar o que se pensa ser bom apesar de muitas vezes não o conseguirmos levar avante. Ao exortar os outros a que o façam, estou ao mesmo tempo a apontar o dedo a mim próprio e a pedir aos outros que mo apontem tanto relativamente às coisas que escrevo como a outras que poderia escrever. Não estou a querer evangelizar, por isso, quem não conhece ainda a Fé. O meu objetivo é, pelo contrário, tentar levar quem já a conhece a evangelizar de um modo que, na minha opinião, é mais coerente com o que a Igreja pede. Continuemos, então.

Sendo a função da Igreja levar almas para o Céu e socorrer principalmente as que mais necessitem, nós temos o santo dever de acolher os outros com os seus pecados — mal de nós se não o fizéssemos. Mas temos também o grave dever de não participar ativamente neles. Ao fazê-lo, além do mal que isso traz às nossas almas, estamos a colaborar para o aumento da necessidade que outros terão de se purificar no Purgatório. Neste ponto, o Catecismo da Igreja Católica é assustadoramente claro. O par. 1868 ensina-nos o quão simples e fácil é ganharmos responsabilidade no pecado dos outros, podendo-nos, assim, tornar cúmplices de quem peca de diversas formas que em muito estão interligadas. Para além daquelas que não levantarão grandes controvérsias, como por exemplo, a participação neles ou a sua ordenação, aconselhamento ou aprovação, há outras mais subtis e mais suscetíveis de serem objeto de tentação, principalmente porque parecem localizar-se naquela proverbial linha muito ténue que separa a tolerância, a compreensão, a misericórdia, a caridade, a amizade, o respeito, o amor, e muitas outras palavras dos seus antónimos. Uma simples frase poderá criar um ambiente pesado, des ou até mesmo inconfortável. Portas podem ficar cerradas para futuros encontros cheios de gargalhadas e serões animados por anedotas e brincadeiras que tanta felicidade trazem. São essas a cobarde abstenção de nos manifestarmos com vista a impedir ou, pelo menos, denunciar o pecado “quando a isso obrigados” pela nossa consciência.

Distingo entre impedimento e denúncia deste modo qualitativo por considerar mais grave falhar no que é mais simples e menos grave no que mais exigente é. Gosto de pensar que Deus terá todas as variáveis em consideração. Haverá mais atenuantes se, por cobardia, nos abstivermos de impedir alguém de pecar do que de apenas denunciarmos um ato que consiste, em si mesmo, em matéria pecaminosa. 

Entre impedir fisicamente alguém de cometer um aborto ou outro qualquer ato de homicídio e impedir alguém de comungar por estar em risco objetivo de cometer um sacrilégio há uma distância metafórica substancial como a que separa o que é límpido do que é turvo.

Realmente, discernir até que ponto devemos impedir alguém de pecar sem que comecemos, também nós, a pecar por interferir de um modo indevido na liberdade do outro poderá ser, por vezes, um processo deveras complexo. Ao mesmo tempo, como me apontou um grande amigo, poderá uma escolha ser realmente livre quando fundada na ignorância parcial ou total das suas implicações e consequências? Preciso de tempo para refletir nisto melhor.

No que diz respeito à denúncia, no entanto — já nem incluo o impedimento —, ainda para mais quando esta pode ser feita na privacidade mais contida, não temos, realmente, desculpa alguma para pecarmos por omissão, principalmente quando as ações que não executamos contrastam com aquilo a que os nossos pensamentos nos exortam. Acredito que qualquer um de nós se sinta impelido pela consciência a dizer, pelo menos, cuidado, pensa lá bem no que estás a fazer, mesmo que logo de seguida venha o que nos força a não agir: o medo da resposta E quem és tu para me estares a dizer isso? ou Olha primeiro para ti, se faz favor ou Não me julgues que isto é entre mim e Deus ou até o medo de que a pessoa fique realmente ofendida e se afaste de nós. Perdoem-me o plural nestas frases. Eu sou assim. E penso que não estou sozinho. Se muitos houver que não se revejam nestas deambulações, melhor, muito melhor.

Como católico, e dito de um modo simples, deveria eu, então, mostrar o que é a Verdade para que se possa percorrer o Caminho que consiste nEla. A Vida desenrola-se e consuma-se nesse Caminho, não fora dEle. Infelizmente, são mais as vezes em que a tentação de estar quieto me controla. Vale-me a misericórdia da Confissão.

Talvez isto possa parecer rígido. E é. Mas é uma rigidez que tem como objetivo a salvação das pessoas. Não há ninguém mais rígido que Jesus. Jesus não muda de ideias. Ele é a Ideia. Como é que se pode amar verdadeiramente alguém sem fazer tudo para que esse alguém se salve? Enganando-o, mesmo que inconscientemente, dando-lhe a conhecer algo que não é Jesus mas aquilo que se acha que é? Recorrendo à noção de misericórdia para justificar o que pode muito bem ser uma distorção do que é querido pela Misericórdia Encarnada? Dizem-me que isto é legalismo. E é. Mas o que deveremos nós fazer relativamente a leis que têm o Espírito Santo como inspiração? E repare-se que estamos a falar de Leis que em nada têm a ver com temporalidade, com épocas que evoluem social e intelectualmente. O modo como os pecados afetam a alma não se altera.

Porque sou cobarde e me falha muitas vezes a coragem para o fazer pessoalmente ou porque outros casos há em que a denúncia pública é essencial — como acontece no caso da defesa ou da permissibilidade do aborto — opto pela via escrita, mais impessoal, sempre na esperança de que possa haver alguém que, graças a uma fração de segundo, pense um pouco mais no que está a fazer e comece a combater de uma forma mais eficaz o pecado. Ou até que se aperceba de que algo que pensava não ser assim tão mau até o é, de acordo com a Santa Mãe Igreja — não comigo, naturalmente. Deus não nos pede mais do que possamos dar. Às vezes, porém, precisamos que nos digam o que Ele quer. Eu bem sei do que falo a nível pessoal.

Estou, por isso, disposto a ser apontado como intolerante, rígido, arrogante, legalista, tradicionalista, e todas os outros adjetivos que me quiserem apontar por fazer o que faço. Faço-o verdadeiramente por amor. Faço-o para responder ao pedido de Jesus no capítulo 17 do Evangelho de São João, onde roga “para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste. Eu dei-lhes a glória que Tu me deste, de modo que sejam um, como Nós somos Um. Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim.” Não podemos ficar pela parte humana, ao estilo da ONU, de que todos sejam um. Temos é de nos perguntar como é que Jesus e o Pai são um. E nós temos de ser um dessa maneira e não de outra. Não há rigidez mais perfeita. E peço, como prova de alta caridade, que me apontem o dedo quando me virem a não fazer o que estou a defender, principalmente depois de lerem o que acabo de escrever. Peço que me acusem de não estar a amar do modo que devo. Peço que me julguem por poder estar a negligenciar a salvação dos meus irmãos em Cristo. A minha cobardia necessita dessa ajuda. Do mesmo modo que eu me sirvo do facto de escrever sobre as coisas como também uma desculpa para depois poder falar delas, ou para que se saiba que as penso, sugiro também o mesmo a quem me estiver a ler. Comecem por mim. Serão bem-vindos.

É esta a lei a seguir: a Lei de Cristo. Todas as outras terão, forçosamente, de ser coerentes com esta. “Amai-vos uns aos outros”. Mas só isso? Não! “Como Eu vos amei”. Tudo tem de O incluir. Mesmo que veladamente, dependendo das circunstâncias, mas com Ele incluído. Não se pode dar Jesus às pessoas saindo do Caminho que é Ele.

Pedem-me que seja Evangelho e que não tente evangelizar com argumentação. Mas como é que se pode ser Evangelho de um modo eficaz sem mostrar o que o Evangelho é? Enquanto se andar a fugir-lhe, será preciso argumentar para demonstrar em que consistem essas fugas. Senão, em que consistiria ser-se evangelho? Qual deles? O meu? Os Evangelhos estão escritos. Eu posso muito bem mostrar o que faço para que as pessoas vejam o meu comportamento. Mas isso não implica que haja outros comportamentos potencialmente válidos. Não basta esta postura de eu faço assim, mas tu és livre. Sim. O outro é livre. E eu também sou livre para escolher dar ou não a conhecer o que Jesus nos pede; mais crucial ainda, sinto-o de uma forma muito forte, é o tal uso que fazemos da nossa liberdade para não tentar levar os outros a fazer o caminho certo ou para não mostrar aos outros porque é que o seu caminho está errado. Quantos não estarão a passar horrores interiores no Purgatório apenas porque eu decidi ficar calado e confortável, com uma cerveja fresquinha na mão e um jogo à espera? E isso porque tive medo de criar um ambiente embaraçoso, porque não quis correr o risco de alguém ficar ofendido comigo. Isto é amar? Só se for a mim próprio e ao meu conforto egoísta. Não, não é. O que é que Jesus teria feito? Nós sabemos muito bem o que é que Jesus teria feito. Teria deixado muito claro o amor incondicional que tem pelos pecadores e pedido para não voltarem a pecar. 

E apesar disso tudo, eu vou continuar a fazer o mesmo. Não querofazê-lo de outra maneira. Fico agarrado à ideia de que Deus não será ríspido para com aqueles que não mudaram o seu comportamento por minha culpa. Mas estou totalmente errado neste pensamento. Estou a ser tremendamente injusto com Deus. Estou a assumir que a rispidez de Deus deve depender do que eu, na minha liberdade, faço. O pecado é material. O próprio sacramento da confissão o trata assim. O pecado é a matériade que nos confessamos. Independentemente de sabermos, ou não, que estamos a pecar, a marca está lá. Seria como argumentar que se eu não souber que estou todo sujo, então não estou; ou que desde que eu esteja assim apenas por distração, ou até mesmo sem ter tido consciência disso, não haveria necessidade de ficar limpo.

C. S. Lewis tratou este tema de um modo bastante visual:

“As nossas almas exigem o Purgatório, não exigem? Não nos partiria o coração se Deus nos dissesse ‘É verdade, meu filho, que o teu hálito é fétido e que a tua roupa gasta e velha pinga lama e lodo, mas, aqui, nós somos caridosos e ninguém te vai repreender por essas coisas ou afastar de ti. Entra e participa da alegria.’? Não deveríamos nós responder, ‘Com submissão, meu Senhor, e se não houver objeções, eu preferia que me limpassem antes’? ‘Pode doer, sabias’? — ‘Mesmo assim, meu Senhor’.” (C. S. Lewis, Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer, Letter 20, in https://gutenberg.ca/ebooks/lewiscs-letterstomalcolm/lewiscs-letterstomalcolm-00-h.html#chapter20. Tradução minha.)

Para ele, não se tratará, portanto de uma condenação, mas sim de uma constatação, de uma tomada de consciência de como realmente somos e estamos. E não me parece absurdo considerar que essa consciencialização possa ser ainda mais dolorosa quando nos dermos conta de que o estado deplorável em que a nossa alma está poderia ter sido evitado com uma simples palavra, com um sinal apenas, talvez, no momento certo, que nunca foi pronunciada ou feito. Se eu for fazer um exame e, depois, tiver de o repetir, vou reagir de forma muito diversa dependendo das suas potenciais causas. Se esse resultado já fosse considerado uma possibilidade ou até expectável por ter sido preguiçoso, nada mais haveria a fazer que não seja estudar (mais) para a próxima. Se, por outro lado, ele for totalmente surpreendente por as respostas esperadas serem as opostas às que eu pensava que devia dar — ou porque me ensinaram de forma errada ou porque não me corrigiram quando era claríssimo que seria assim que eu iria responder — muito diferente será a minha reação. Haverá outras analogias, mas talvez esta seja suficiente.

Apesar de a necessidade de correção interior ser, provavelmente, maior no caso de ter sido eu a ter recusado, conscientemente, um comportamento e ter, também em consciência, escolhido um caminho diferente, imagino que, para além do sentimento de revolta que eu tiver para comigo, nada haverá contra outro que não eu. A culpa foi minha e só minha. Agora estou a ser preparado, a ser limpo para poder estar na presença de Deus. Se, no entanto, me aperceber de que aqueles que queriam o meu bem nada disseram, seja por que motivo for, terei também que ser limpo do que de negativo vier dessa tomada de consciência. E muito embora sejamos frequentemente mais duros connosco do que com os outros, penso que vamos sempre reagir mais ferozmente se tivermos de nos purificar também de sentimentos impuros que nasçam por quem não nos ajudou. Estamos ainda fora da presença de Deus. Estamos em processo de purificação. Imagino que ainda possamos sentir as coisas, refletir nelas, para que as possamos rejeitar e purgar. Quanto mais houver que não seja amor, mais haverá que suprimir.

Qual não será a alegria de quem se apercebe que foi, também, graças ao amor que os seus tiveram por si que a necessidade de espera antes de estar na eterna presença de Deus é menor? E também a nossa, naturalmente, ao percebermos que não há que ser limpo pelas faltas de caridade para os outros. E não será o negligenciar a saúde espiritual de alguém a maior falta de caridade que se possa cometer? E haverá maior sofrimento em estar quasena presença de Deus mas ainda não?

É nisto que penso quando sofro e me manifesto contra o que possa levar os outros a uma maior necessidade de purificação pelo fogo, como diria São Paulo. E está tão ao nosso alcance contribuir para o seu oposto.

Pedro

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