A trilogia da Matilde (Três pequenos encontros entre a Fé e a Matilde, a nossa filha.)

A Matilde do título é a minha filha de 9 anos. Tenho, por isso, uma predisposição genética para considerar tudo o que saia da sua, ainda, boquita, o mais maravilhoso possível. Mas que isso não vos deixe com a impressão de que aquilo que vou dizer irá, de alguma maneira, refletir essa minha inclinação paternal. Não vai.

Já por várias vezes que ela me acompanha em viagens pela fé. As três histórias que aqui vou contar, embora lhes dê um enquadramento mais narrativo, nada terão de acrescentado às palavras que ela usou. O mesmo já não direi em relação às minhas, já que não prestei tanta atenção a elas como às dela.

As histórias estão por ordem cronológica. A primeira deve ter acontecido algures por Julho de 2017, a segunda foi a 8 de Dezembro de 2017 e a última Domingo passado, dia 3 de Março de 2019.


Quando a Matilde questionou o meu amor por ela

Agora já nem tanto, mas aqui há um ano, era muito frequente vermos vídeos no YouTube os dois. Ela ría-se à desgarrada a ver o pessoal do Gato Fedorento a falar de vegetais, por exemplo.

Lembro-me que estava na cozinha a preparar o lanche e que, dessa vez, o conteúdo era outro. O Padre Paulo Ricardo estava a falar do Padre Pio. Primeiro, ainda cheguei a perguntar-me se não seria melhor mudar, já que se estava a falar de estigmas e outras coisas que, para ela, seriam de difícil compreensão. Mas não, acabei por deixar. E a certa altura estávamos já os dois a assistir. Eu perguntei-lhe, agora me recordo, se ela preferia ver um Star Trek — ser pai tem muitos aspetos magníficos, como a possibilidade de se ter uma filha que gosta de ver episódios de Star Trek “daqueles mais velhos, com o capitão Kirk” —, mas ela disse que não. Ela gosta do Padre Paulo Ricardo, acho que é também porque ele usa muito um quadro verde, onde vai escrevendo com giz.

Não muito tempo passou até que a chuva de perguntas me inundou: sobre o sangue que ele tinha nas mãos, sobre as febres altas, e, a certa altura com uma expressão de maior, e natural, incredibilidade, sobre a bilocação. Eu lá fui explicando o melhor que podia e, talvez um bocado de repente, decidi mudar de vídeo. Talvez estivesse a ser um pouco demais para ela. Começámos a ver outra coisa qualquer. O quê, já não me lembro. Do que veio depos, disso lembro-me muito bem.

Mais tarde nesse dia, creio que pouco antes da hora de jantar, estava a ajudá-la a preparar-se, talvez com o pijama, e tivémos de ir à casa de banho, quem sabe para lhe cortar as unhas, não sei. Deve ter sido isso, porque recordo-me perfeitamente de estar, eu, sentado no muro da banheira e ela à minha frente, coisa que acontece, principalmente, quando as suas unhas e o meu canivete suiço pequenino estão relacionados intimamente.

Ela começou a perguntar-me mais coisas sobre o Padre Pio e eu lá fui indo, até que a certa altura surgiu a confissão e o tempo que ele passava dentro do confessionário. As perguntas começaram a ser mais complicadas. Agora já não estávamos a falar de fenómenos sobrenaturais que ficam bem em forma de história que se conta a uma criança. Não, agora as perguntas vinham de uma menina que se estava a preparar para a primeira comunhão e que já sabia que teria de se confessar antes de comungar pela primeira vez. Aqui, o interesse passou a ser pessoal.

A primeira pergunta foi se era o senhor padre que perdoava os pecados. Eu disse-lhe que não, que era sempre Jesus a perdoar, mas que o senhor padre perdoava em Seu nome. Ela aceitou com facilidade. Mas havia, para ela, buracos na história que precisavam de cobertura. Veio, então, a segunda pergunta. Desta lembro-me literamente: “E como é que o senhor padre sabe que pode falar por Jesus?” Sentí-me aliviado, que essa era uma resposta simples, já que tinha sido o Próprio a dar essas instruções. E assim comecei a catequizar. Mal sabia eu como iria estremecer, sem exageros, daí a um minuto ou dois.

Neste momento, perdoem-me aqueles para quem isto seja inteiramente óbvio, preciso de relembrar uns tantos versículos dos Evangelhos de São João e de São Mateus. Comecemos pelo último, já que será, provavelmente das passagens mais famosas de toda a Bíblia. Em Mateus, 16:18, Jesus dirige-se a Pedro dizendo: “Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela”. Intimamente relacionado com este versículo, há a conversa entre Jesus e Pedro narrada em João 21:15-17, onde se conta que, “15Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta os meus cordeiros.» 16Voltou a perguntar-lhe uma segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-me?» Ele respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.» 17E perguntou-lhe, pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?» Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado, à terceira vez: ‘Tu és deveras meu amigo?’ Mas respondeu-lhe: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo!» E Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.” São, portanto, duas passagens de dois Evangelhos distintos sem aparentes ligações linguísticas. Numa fala-se de pedras e de edificar igrejas e na outra fala-se de amor, de amigos e de apascentar ovelhas. A intima relação teológica que existe entre elas está no facto de vermos Jesus a selecionar Pedro para que, por um lado, seja ele a pedra em que a Sua Igreja será fundada e, pelo outro, seja ele, e não nenhum dos outros apóstolos, a cuidar de nós. Voltemos agora à nossa história.

Estava eu, portanto, a explicar à Matilde que tinha sido Jesus a dizer, não exatamente nestes termos, mas a dizer que os padres podiam perdoar os pecados. E até estava todo preparado para recorrer a João 20:23, onde isto é dito explicitamente, se isso fosse necessário, se eu visse que ela queria algo de mais substancial. Basicamente, comecei a contar-lhe que Jesus tinha dito a Pedro que ele iria ser o primeiro Papa. Ela gostou de ele ter o mesmo nome que o pai, e disse-mo. E eu continuei, citando o famoso “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a mi…”

Ainda não tinha acabado de dizer “minha” — ou até talvez tivesse, não sei bem nem importa —, quando ela me interrompeu de um modo explosivo:

— Mas tu amas-me?

Eu fiquei imediatamente perplexo. Demorei uns segundos a perguntar o porquê de me fazer essa pergunta naquele momento. Ela disse que não sabia e até pediu desculpa por ter interrompido, sabendo muito bem que nem a Ana — a mãe — nem eu gostamos quando ela o faz. Mas eu deixei bem claro que não estava zangado e que era muito importante para mim que ela me explicasse. Ela continuou a dizer que não sabia, que apenas tinha tido vontade de me perguntar se a amava quando ouviu a palavra edificarei. Perguntei-lhe se sabia o que a palavra queria dizer, e ela confirmou o que já calculava, que não. E repetiu o que tinha dito antes.

— Tu disseste edificarei e eu quis perguntar.

Acho que posso dizer que foi a primeira vez que ela me fez essa pergunta. E posso dizer também que muito dificilmente, para não dizer impossivelmente, era terá lido os Evangelhos em causa, muito menos ter consciência da relação entre as duas passagens. Além disso, era eu que a estava a preparar para a catequese e eu nunca lhe tinha falado em tal coisa. Também duvido que, mesmo na altura que ela tinha aulas com outra catequista, se tenha, em algum momento, relacionado estes dois textos.


Quem é a última morada?

Quando eu era criança, tive um Game Boy; e um dos jogos que o meu avô me deu logo no início foi o Super Mario Land. Quem esteja minimamente familiarizado com a sua personagem central, o Mário, saberá muito bem como é que a maioria dos jogos em que ele é o protagonista se desenrolam: há um caminho a percorrer e vários níveis, sendo que a intensidade e a dificuldade do jogo vai aumentado gradualmente. A experiência que se adquire num nível, ajuda a tornar o próximo mais exequível, mas mesmo assim, a proporcionalidade entre competência e dificuldade não é, intencionalmente, uma das características. E eu, algures durante o ano passado, enquanto andava a ler Santa Teresa de Ávila, verifiquei que existe um paralelo considerável entre a sua descrição das várias moradas do Castelo Interior e os jogos do Mário. Não será muito difícil de ver. O pecado põe-nos fora do castelo, onde há fossos com repteis, e através da oração e da confissão podemos entrar no castelo. O objetivo é alcançar a sétima morada, onde a alma se encontra com Deus. O modo como esta Doutora da Igreja descreve o caminho que se percorre pelas moradas é de uma originalidade e destreza de mente e espírito que eu nem sequer me vou atrever a tentar reproduzir aqui. Será suficiente dizer que, quando mais se caminha de morada em morada, maiores as contrariedades, as tentações, os ataques à alma. Não creio que fosse sacrílego desenvolver um jogo de plataformas com um argumento semelhante. De certo que seria mais interessante, pelo menos no que à história diz respeito, do que andar a saltar em cima de tartarugas e a bater em blocos de pedra para se apanhar um cogumelo que nos faz ficar maiores e mais fortes ou uma flor que nos habilita a lançar um projétil que mata, mais facilmente, os inimigos. É apenas depois de se estar maior e mais forte que se pode apanhar a flor. É tão assim que, no lugar onde uma flor nasce, se não estivermos já com um tamanho superior, salta o cogumelo. Enfim.

Chegou, então, uma noite em que eu decidi contar à Matilde, antes que ela adormecesse, a história do Castelo. Ela ouviu interessada e assim passámos várias noites, sempre andando de morada em morada. E depois disso, o tempo foi-se passando, e nós apenas falávamos das moradas de vez em quando, quando algum assunto qualquer o suscitasse, mas nada de consistente ou persistente.

Chegou o dia 8 de Dezembro e, como seria natural, falei com ela um pouco sobre o que é a Imaculada Conceição. Lembro-me de ter puxado um bocado o assunto para cima, um tanto curioso por ver até onde ela o deixava ir. A certa altura, disse-lhe que havia quem dissesse que, sendo esta doutrina verdade, Deus não a teria deixado livre para dizer que sim, mas sim que a tinha preparado para isso. Ela ficou parada a olhar, à espera de mais, provavelmente, do remate final. Disse-lhe, então, que nós todos temos uma inclinação natural para o que é mau e que é, através da fé — mesmo sem o sabermos —, que ganhamos a força para o combater. Estás a seguir?, perguntei-lhe. Ela fez que sim com a cabeça, mas eu não estava muito convencido, pelo menos ainda. E terminei dizendo que a Imaculada Conceição tinha acontecido para, precisamente, não dar essa inclinação natural a Maria. Ela interrompeu-me — coisa que na maioria dos casos pode chegar ao ponto da exasperação, não neste —, para dizer que já sabia, que Deus lhe tinha tirado isso porque sem isso é que ela tanto poderia dizer que sim ou que não sem estar a pensar em nada. Eu pensei logo que, para a próxima, lhe iria dar mais cedo o benefício da dúvida quanto ao seu entendimento destas coisas. E pronto, ficámos por aqui e ela foi brincar.

Passados alguns minutos, veio ter comigo e perguntou-me:

— Papá, Maria teve Jesus na barriga, não foi? — Eu disse que sim. — E Jesus é Deus, não é? — Sim. — Então… Maria foi a sétima morada?


Falta de educação ou lógica santa?

Estávamos para ir visitar o Museu da Catalunha, mas não fomos. Fechava mais cedo do que pensávamos. Fomos, em vez disso, conhecer o mosteiro de Sant Pere de Casserres, um magnífico exemplar do pesado românico catalão, cuja beleza arquitetónica é ajudada pela paisagem que o levanta, estando ele rodeado por montanhas, os Pirenéus à vista, e rio Ter a rodeá-lo mais a baixo, dando uma ideia da intencionalidade insistente com que foi cavando o vale cada vez mais fundo só para que o mosteiro pudesse ficar onde ficou.

Depois, a hora da Missa a aproximar-se, fomos até Vic. Reparo agora que me esqueci de dizer que o plural que tenho usado inclui a Matilde, a Ana — que já apresentei acima — e os seus pais, Céu e Carlos, que nos vieram visitar.

Em Vic, lanchámos. E, depois disso, decidimos ir dar um passeio a pé, já que a Igreja era ali por perto e ainda havia tempo.

Algures pela Plaça Major, a Ana começou a falar com o João, seu irmão, e metemo-nos pelas ruelas ali às curvas. sempre a segui-la, para que não nos perdêssemos dela. A Matilde ia com a trotinete, toda feliz. Uma portada dupla, a certa altura, apareceu à nossa frente, com luz por dentro. Não que o edifício deixasse perceber, mas o tipo de porta era típico de igreja. Tanto eu como o meu sogro temos uma grande afeição por arquitetura sacra, e é difícil não entrar quando se pode. Por vezes, e claro que apenas esteticamente falando, há desilusões, mas não foi este o caso. Entrei com ele.

O ambiente era mais escuro que o habitual, o lugar mais iluminado lá ao fundo, o altar. O sacerdote — depois volto ao sacerdote —, sentou-se uns segundos depois de termos entrado. Eu sentei-me também, curioso. Para já, fiquemo-nos pelo altar. Ao contrário daquilo a que estou habituado, o grande missal estava aberto, do lado esquerdo, só que voltado para a audiência; havia — também coisa pouco usual —, um crucifixo ao centro; do lado direito, o cálice para a Consagração, coberto por um pano que me pareceu ser rendilhado, deixava adivinhar a patena com a hóstia por consagrar, pousada na sua boca. A Igreja tinha um estilo difícil de identificar. A talha dourada no altar era tipicamente barroca. O teto da capela mor era azul, o céu, com certeza, com estrelas simetricamente distribuídas, também em dourado. As naves eram três, separadas pelas óbvias colunas, quadradas, com um aspeto muito mais moderno. Logo à entrada, numa das capelas do lado esquerdo, uma cruz com Cristo crucificado recorda-nos do que foi necessário para que tivéssemos a possibilidade de Vida Eterna.

Começou a primeira leitura. Embora a Missa já não estivesse completa, eu tinha de ficar ali. O meu sogro foi à rua buscar a Céu, a Ana e a Matilde. Elas entraram daí a uns momentos. Veio o salmo, a segunda leitura, o Evangelho, a homilia e o ofertório. A Matilde, que quer sempre poder ver com atenção o que o senhor padre faz, estava, como é usual, com a cabecita esticada. A certa altura, saiu do lado da Ana e veio sentar-se entre nós os dois, coisa que também faz com frequência, não necessariamente como desta vez, mas para ter uma oportunidade para se mexer um bocado. Agora, porém, creio que o objetivo era mais claro. “Papá, o senhor padre está de costas a falar”. Eu sorri para ela, entusiasmado. Era a primeira vez que estava numa celebração ad orientem, em que o sacerdote não está sempre virado para nós, mas também por vezes para o altar. Estava até tentado a dizer que esteve mais tempo de costas — forma um tanto incongruente de descrever a situação —, mas tendo em conta que não foi esse o caso, pelo menos, durante as leituras, a homilia, e a comunhão, talvez tenha acabado por estar mais tempo voltado para nós. A antecipação com que esperava a Consagração era grande. Seria em Latim? Acabou por ser, sim. Senti-me a viajar no tempo, a partilhar a mesma Missa com Santa Teresa de Ávila, com Santo Inácio de Loiola, com São João da Cruz, com o Cura de Ars.

Estava, então, a Matilde, a trazer à minha atenção que o senhor padre estava virado de costas. Eu apenas lhe disse que depois lhe explicava porquê — apesar de nunca ter estado numa celebração assim, já muito tinha lido sobre elas. Foi então que ela me disse a frase que, segundo um grande irmão na fé, deita por terra toda e qualquer argumentação progressista. E realmente é assim. Não consigo imaginar qualquer frase que comece com uma adversativa para contrariar o que ela observou.

— Papá, parece que está a falar com Jesus.

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