(Um conto com nevoeiro e um comboio.)
O primeiro que te escrevi com um propósito: tu.
18/08/2005, 03:47
… ouço comboios a chegar nas linhas certas / que levam sem transbordo ao Paraíso.
Maria da Graça Pulquério
Era já manhã. A chuva caía ligeiramente oblíqua mas ameaçava terminar. O tempo que decorria de gota para gota já praticamente se podia contar e o respingar no chão parecia estar a ficar sem corda. Por trás das montanhas sopradas de neve, os primeiros raios do Sol começaram a incomodar os olhos aparentemente ainda ensonados do Pedro, sentado num banco de madeira junto à linha do comboio. Nas suas costas, a parede da estação rangia ligeiramente ao ritmo instável do vento. Com um movimento involuntário, casual, o Pedro olhou para cima. No letreiro que identificava a localidade, apenas um A, um N e outro A se mantêm pregados, espaçados sem um padrão percetível. Haverá mais letras do lado de lá? No telhado, e sem que ele ainda a pudesse ver, uma bandeira dançava, hasteada até ao alto. O letreiro, que, pelo menos para a percepção do Pedro, até então estivera quieto, começou agora a oscilar, como se um balouço fosse, como se tivesse esperado até que o Pedro o visse para se manifestar, e as pequenas correntes de ferro que o mantinham seguro à extremidade do telhado iniciaram o seu tilintar. Voltou a olhar para a frente e tapou o Sol com a mão, sem querer com isso encontrar algo de especial do outro lado da linha. Os candeeiros da estação ainda estavam acesos e só por pouco não se conseguia ouvir o barulho sibilante do gás. Levantou‑se e desembolsou o relógio do colete. Tinha um cão gravado na tampa. Gostava do estalo que ela dava ao abrir. Ainda era cedo.
O Pedro pensou que a estação só não estava deserta graças a ele e sorriu, como sorri quem consegue achar engraçado sentir‑se feliz por estar a fazer companhia a uma estação de comboios. Decidiu caminhar um pouco, primeiro junto à linha, depois dentro da casinha de madeira, a casa da estação. Por fora parecia uma casa de campo, igual a tantas outras, até uma chaminé tinha, mas possuía o encanto que só uma estação de comboios consegue ter, personalizado ao sabor da imaginação de cada mente. A bilheteira estava fechada. O Pedro queria ver o velhote de boné que deveria estar lá dentro. Continuava cedo. Será sempre cedo neste lugar? Voltou a sair para a plataforma. Já não havia chuva.
Das linhas, levantava‑se um nevoeiro carregado que as foi cobrindo até que ficaram escondidas. O Pedro voltou para baixo do letreiro das três letras. O Sol estava esborratado numa mancha amarelada e aguada, como um candeeiro pendurado dentro de uma tela de fumo. O Pedro levantou os olhos e, no letreiro, leu Ana.
Olhou para a linha e imaginou uma locomotiva negra, com a sua grande chaminé, um cachimbo levantado, a deslizar na neve e no cinzento. A locomotiva arrastava um corpo de carruagens azuis, brilhantes, cheias de janelas e caras, chapéus e risos. O comboio imobilizou-se na linha, a soprar e assobiar. Uma das janelas abriu-se e a cara que se destacou em relevo prendeu‑lhe a atenção. Tinha um sinal no queixo e olhos castanhos, rasgados. Os lábios eram de um cor‑de‑rosa diferente e a sua forma oscilada fazia lembrar, ao centro, um atenuado bico de águia. Os cabelos escuros voavam dentro do vapor. O Pedro tirou o chapéu e parou o tempo por uns instantes. Olhou para o letreiro e leu-o novamente, seria ela também Ana?
Ana era a localidade do seu sonho.
A Ana desceu da carruagem azul e aproximou-se devagar.
— Leva‑me contigo! —, pôde ler-se nos lábios do Pedro.
A Ana sorriu e abanou um pouco a cabeça de um lado para o outro enquanto encolheu os ombros. Teria a boca do Pedro emitido qualquer som?
O Pedro acompanhava em detalhe cada seu movimento, como se eles se pudessem desenlaçar uns dos outros, como se fosse, cada um deles, um texto a transbordar de significados novos e ambíguos, codificados com uma chave ainda desconhecida, uma chave que só a vida consegue ser.
O comboio continuava parado, pousado, em frente a ele.
— Leva‑me contigo…
A Ana inclinou-se um pouco sem mover os pés, agarrou‑lhe numa das mãos e encostou‑a à sua cara. Tinha pele de pêssego. Dobrou o pescoço para o lado e prendeu‑lhe a mão com a ajuda do ombro. O Pedro quis ali ficar. O comboio começou novamente a deslizar, as rodas metálicas da locomotiva a chiar, a derrapar, e o fumo pressionado a assobiar alto.
— Mas leva‑me contigo! — sonhou e pediu.
O letreiro ainda tilintava. A Ana continuava a sorrir. O Pedro queria que ela o levasse, mas foi ela quem ficou. O comboio ganhou distância e os dois permaneceram na estação. O nevoeiro começou a dissolver‑se. O Sol retomou a sua cor matinal.
A Ana esticou os braços para o abraçar, como quem se espreguiça.
— Leva‑me contigo… Leva‑me…
A Ana já não o ouviu. Tinha encostado uma das mãos ao vidro gelado da carruagem azul em que viajava e o desconforto repentino despertou-a com um ligeiro sobressalto.
Mais tarde, o seu comboio parou numa terrinha que nunca antes lhe tinha dado motivos para reparar nela. O letreiro pendurado com correntes que lhe dava o nome era velho e desletrado. Havia primeiro um P e mais à frente um E. A Ana não foi a tempo de ver as outras letras que por lá também andavam. É que o único passageiro a embarcar, de chapéu e com um relógio de bolso preso entre os dedos, distraiu-a quando veio sentar-se à sua frente. A Ana fixou os olhos nele com um modo peculiar de fixar gente. Teve a impressão de já o conhecer.
Por uma qualquer razão, sem um objetivo concreto em mente, começaram a conversar. A viagem que iniciavam agora, levá-los-ia, sem transbordos, ao Paraíso.