Um convite silencioso (Sobre divórcio, comunhão e representações erradas da Doutrina.)

Prólogo

As pedritas do chão, já sem asfalto, pareciam não se incomodar com o joelho do homem, que o ia levantando e pousando, sempre que possível, para aliviar, primeiro, o incómodo, depois a dor. Ele já tinha tentado estar apenas dobrado — estar dobrado é menos que estar de joelhos —, e durante alguns minutos, poucos, o resultado foi satisfatório. Mas não ad aeternum. Os músculos das costas, tensos, queixaram-se-lhe ao cérebro, que num instante ordenou um movimento compensatório. O homem obedeceu, com prontidão a mais, e aproveitou para se ver livre da mochila que ainda não tinha descostado. Quem agora se manifestou foi a sua coluna, que soltou uma pequena sequência de estalidos semelhantes à percussão de um xilofone, ruído que em nada envolveu instruções cerebrais. O homem largou a mochila à bruta, levou as mãos aos rins e atirou o tronco ainda mais para trás, com uma expressão de grande desconforto misturada com um sorriso de dentes cerrados. Depois disso, decidiu pela alternativa com que começámos lá em cima. No momento em que estamos, ainda não lhe tinha ocorrido trocar um joelho pelo outro.

À sua frente, sentada no dorso de um burrico, mas não em posição de amazona nem de cavaleiro, mais como se de uma cadeira se tratasse, cada mão apoiada a cada lado, uma mais perto da crina e outra mais perto da cauda, uma mulher tentava discernir se devia rir ou chorar — o primeiro por causa das cócegas, o segundo por causa das dores, essas sim, substanciais, e não como as do joelho ou das costas do homem. Não que fosse ela a pensar tal coisa ou a discriminar as diferentes dores — talvez ela até estivesse mais preocupada com a postura dele, que evidentemente o estava a incomodar, do que com as suas próprias disposições —, mas a verdade é que a situação em si permite fazer especulações nesse sentido. Os pés dela, provavelmente o oposto dos dele, ainda se conseguem adivinhar femininamente delicados, mesmo sob a capa de poeira acastanhada e das marcas de cor semelhante que as tiras das sandálias tinham tatuado com ajuda da transpiração. Depois, havia as feridas. Era a elas que o homem dedicava com cuidado e lentidão. O simples movimento necessário para que ele lhe conseguisse ver a planta do pé obrigava-a a fazer a pele esticar, coisa que, para ela, era difícil de suportar. Ele aproveitava todos os instantes que tinha para tentar — por vezes sem conseguir — remover pequeninas pedras que se tinham alojado na carne. Como é que ela tinha deixado a coisa chegar até aquele ponto, apetecia-lhe perguntar, mas isso não iria ajudar em nada. Que mania a dela de andar sempre assim, mesmo quando está frio. É de família, não é, perguntava-lhe ele pelo meio dos seus pensamentos. Manias da tua mãe… Manias não, desculpa… Hábitos, ia-se ele corrigindo por dentro e combatendo a irritação típica de quem vê alguém magoado por falta de antecipação. Teria sido uma coisa prolongada ou repentina? E precisamente quando? Afinal de contas, pensava ele, tinha sido ela a estar mais tempo em cima do animal. Olhou para trás, para de onde vinham. Ainda se conseguia ver o ponto em que o asfalto tinha terminado. Depois pensou no seu próprio calçado e no dela. Nitidamente, cinco horas a caminhar com os sapatos que ele tinha seriam o equivalente a 5 minutos com as sandálias dela. Talvez menos. E ele não pensou nisso antes. Nem ela. E muitas vezes só nos apercebemos de feridas quando elas já existem. Das físicas, e das outras também. Talvez por descargo de consciência, acabou por preferir pensar que ela tinha ficado assim apenas uns segundos antes de ele ter reparado que ela estava com dores. Talvez tenha sido assim mesmo.

Agora sim, mais conhecedor dos perigos do chão, decidiu trocar de joelho para dar um pouco de alívio ao que, até esse momento, tinha estado no chão.

Continuou a cuidar dela, e pelo meio de ligeiros gemidos claramente muito controlados, conseguiu libertar-lhe os pés de todas as pedras que os rompiam. Se tivesse um pouco de água, usá-la-ia para retirar bem a poeira, mas não.

Levantou-se. Ela, por perceber que ele tinha terminado, sentiu imediatamente menos dores. Naturalmente, ela iria continuar sentada, agora com uma perna de cada lado do dorso do burrito, com os pés à solta, a arejar, e ele a puxar o burro. E lá seguiram caminho.

Uns metros mais tarde, talvez por providência divina, o homem olhou para o lado certo e conseguiu vislumbrar uma pequenina torre de igreja, lá por trás de umas árvores. Reparou, então, que apenas uns passos mais à frente, havia um carreiro perpendicular, certamente na direção que lhe interessava. Os cantos da sua boca elevaram-se imediatamente. Muito provavelmente, na igreja ou lá por perto, alguém lhes poderia dar guarida por um tempo para que ele possa tratar dela melhor. Sem necessidade de conversas explicativas, o plano ficou claro. Compreensivelmente, ela também se mostrou satisfeita com a ideia.

Caminharam uns minutos e, já mais perto, com a igreja já bem à vista, repararam num padre cilíndrico à porta — parece-me que se assemelhava a um pião de xadrez ou a um frasco de perfume, bem redondo e com a cabeça no topo, como uma tampa, menos gorda, obviamente. O padre estava um pouco inclinado para trás, o sol a bater-lhe na cara. Devia estar a saber-lhe bem. Ao ver o casal aproximar-se, sorriu-lhes afavelmente. Eles retribuíram com vontade.

A igreja — assim eu me lembro dela, talvez erroneamente — era tipicamente tradicional, com uma torre ao centro e um telhado que, na sua base, da torre, escorrega pelos lados até ficar uns centímetros suspenso depois de ultrapassar as paredes laterais. Geometricamente falando — façam um desenho que logo a vêem —, é um i grego a fazer o pino, parecido com um lambda, apoiado em cima de um quadrado ligeiramente mais estreito que os braços abertos da letra mencionada. Imaginemos que havia algumas árvores na gravura, talvez como fundo, uma ou duas nuvens no céu, o sol num dos cantos superiores, quem sabe umas casitas do lado esquerdo, como se de uma rua se tratasse.

O padre deu uns passos em frente e, pondo as mãos atrás das costas, deu um ligeiro, minúsculo, salto com os dois pés, como se apenas se quisesse por nos seus bicos mas o tivesse feito com força a mais. Aparentava excitação.

Os viajantes aproximaram-se e a conversa foi necessariamente curta. Ele estava preocupado com os pés feridos da mulher que o acompanhava e pediu que os deixassem entrar para que pudessem usar uma casa de banho e, sem querer abusar da hospitalidade, talvez ter acesso a algo com que envolver os pés dela, para os proteger do pó da estrada. O senhor padre, disse que sim, primeiro sem qualquer hesitação, depois continuou a repetir os sim, como se estivesse a congeminar alguma coisa, a ter uma conversa consigo próprio a quem agora respondia afirmativamente.

Contente e aliviado com o que se avizinhava, o homem ajudou a mulher a sair do burro — ele já pensaria num modo de o deixar amarrado ali por perto. Já estava ele com ela ao colo a passos de entrar na igreja quando reparou que, num dos lados da porta — seria do esquerdo? — havia um letreiro que o fez cambalear um instante sem saber bem o que pensar nem como reagir. O padre fez um gesto rápido, talvez tivesse pensado que o homem tinha tropeçado, e amparou-o num cotovelo. Que se passaria? O homem disse que não era nada e deu um passo em frente. Infelizmente, os seus olhos tinham ficado pregados no letreiro e o padre, apercebendo-se, sorriu só para um lado. Foi como se já tivesse passado por uma experiência semelhante e estivesse para soltar um

— Então é isso, não é?

O homem corou instantaneamente e parou, envergonhado, sem conseguir responder, dando depois um passo atrás. A cara amigável e aberta do padre distorceu-se em séria e cerrada. A mulher, quando leu o letreiro, pediu com comiseração que o homem a pusesse de volta no burro. Que deixasse lá. Que não havia problema. Ele não obedeceu, pelo menos à primeira, e tentou explicar, novamente, o que se passava. O padre limitava-se a apontar para o letreiro e a abanar a cabeça em sinal de não, resoluto. Neste momento, o motivo que o levara a aparentar excitação — motivo bem concreto, materializado numa pessoa que, até agora, estaria dentro da igreja — ficou totalmente esquecido.

As vozes, vindas de fora, começaram a furar o silêncio fresquinho que existia dentro das paredes brancas da igreja, e não demorou até que aquilo que aparentava animação fosse substituído pela certeza da discórdia.

A mulher, as palavras do homem não adiantando de nada, deixou que o seu orgulho começasse a transbordar. Ela queria voltar para o burro e pronto. Agitou-se no colo do homem para se soltar para o chão. Se não os queriam ali, não queriam, haveria quem quisesse mais à frente. Ele apertou-a com mais força, para compensar. Agora, a questão já tinha ultrapassado a que de origem havia. O problema tornou-se pessoal. Quanto a ele, tanto se lhe dava, mas ela estava com dores, a precisar de ajuda, e o redondo do padre a apontar para o letreiro, cujas letras lhe davam a impressão de estar a latejar, como uma boca desdentada a abrir e a fechar, a gritar-lhes “PROIBIDO O ACESSO A CASAIS NÃO CASADOS”.

Já insultos puxavam e tentavam abrir os lábios do homem com os dedos aguçados da raiva quando a mulher começou a chorar, aflita, na incerteza de até onde aquilo poderia chegar. Vê-la assim, tão diminuída, fê-lo, à falta de palavra melhor, recuar. Com uma calma inusitada, tendo em conta o seu estado de há apenas dois segundos, lá a sentou de volta nas costas do burro, cuja apreensão seria, decerto, invejável, tivessem eles a presença de espírito para reparar nela. Devagar, posicionaram-se para partir. O Padre manteve-se reto, vitorioso, com o dedo na direção do letreiro.

De dentro da igreja, por trás das portas bloqueadas pelo padre e pelo sinal, uma figura de branco surge com um sorriso escancarado. Tinha as duas mãos em posição de convite à entrada.

Um convite silencioso

Estão, agora, o homem e a mulher, lado a lado, ela sentada no burrico à amazona, ele a pé, com a mochila às costas, e o padre ainda a pontar para o “PROIBIDO O ACESSO A CASAIS NÃO CASADOS”, só que agora com uma expressão de espanto negativo na cara. O homem que apareceu na porta convidativo é o Papa Francisco. O padre tenta falar mas só lhe sai um impotente e surdo

— Mas…

Antiquado e agarrado a práticas e interpretações litúrgicas arcaicas, o padre fica assim exposto na sua condição de tradicionalista que, com a sua batina pesada, não permite que nada mais possa ser encontrado na sua mente pequenina e trancada a não ser o que já lá existe de errado. Por outro lado, do escuro para o claro, o Papa Francisco personifica a Igreja que deseja para hoje: uma Igreja que acolhe e que recebe com caridade e misericórdia aqueles que, antes, eram excluídos e cuja participação nos sacramentos era negada.

Epílogo

No passado dia 13 de Outubro de 2017, publiquei na minha conta de Facebook um comentário relacionado com um cartoon que tinha visto no dia anterior. Não o consigo reencontrar. No entanto, com base no que me lembro dele e também por causa do que escrevi — tão em cima do acontecimento — estava na posse de matéria suficiente para poder contar a pequena história que aqui ficou. A descrição do cartoon é a que é feita na secção “Um convite silencioso“. Apesar das liberdades criativas que possa ter tomado antes, a mensagem central estava lá toda, e nada do que se acrescentou à narrativa lhe adicionou ou subtraiu o que quer que fosse à substância. Apenas penso que essas nuances poderão ter dado um pouco mais de cor à cena e a ter feito um tanto mais lógica.

O cartaz que o cartoonista desenhou na porta da igreja, cujo texto italiano original era “vietato l’ingresso alle coppie non sposate” (proibido o acesso a casais não casados) é contrário ao que a Igreja ensinava. Sendo essa a premissa de todo o cartoon, muito do que se queira implicar com ele perde sentido. Se a motivação era enfatizar os esforços que o Papa Francisco demonstra no sentido de abraçar as pessoas nas suas fragilidades, de as tornar mais participantes na vida sacramental, de agilizar o processo de declaração de nulidade de um matrimónio, de inclusivamente admitir que pessoas divorciadas sem o casamento anulado possam ter acesso à comunhão — se a motivação tiver sido essa, muito mais força teria havido se o cartaz dissesse a verdade ao mesmo tempo que, em jeito de caricatura, incluísse o tal padre que se comporta de um modo contraditório relativamente ao que Igreja pedia — muitos há que o fazem, não só neste tema como, infelizmente, em muitos mais. O Papa Francisco poderia aparecer à mesma, convidativo e amável como o cartoon o mostrava, a sobrepor a verdadeira misericórdia da Igreja à teimosia fria e impiedosa do padre. Da maneira como a cena é representada, parece que há mais interesse em ridicularizar o que havia antes do que em atribuir virtude ao Papa atual.

Não deixa de ser verdade, deve ser dito, que toda esta situação envolve, realmente, contradições muito bem documentadas, mais notoriamente de caráter doutrinal — contradições que são a base, precisamente, para que  tanto se louve a postura diferenciada do Papa Francisco. Mas uma coisa seria representá-las, também a elas, no cartoon. Outra coisa é enaltecê-lo às custas de uma representação falsa e denegrida da Igreja.

Como já disse noutras ocasiões, não acredito que elogios destes agradam ao Santo Padre.

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