Imperialismo, pressa, delicadeza, uma questão de às vezes gostar e outras não ou antes pelo contrário? (Sobre o beijar o Anel do Papa.)

Nada do que vem a seguir é uma sátira ao Papa Francisco. É uma brincadeira, isso sim, com aqueles que saltam em sua defesa de um modo que, na minha opinião, tem o efeito oposto àquele que é, em princípio, o desejado. Posto isto…

Como se cria uma abstração esquemática entre imperialismo[1], pressa[2], delicadeza[3]e uma questão de às vezes gostar e outras não[4]? O Papa: são quatro das possíveis interpretações para a fuga com a mão dos lábios de algumas pessoas que o queriam cumprimentar com reverência — 19, segundo um artigo do jornal Público (n. r. 2). 

Ora sorria o Santo Padre, ora sorriam os que se viram subitamente numa daquelas situações em que ficamos suspensos no ar, com os lábios a fazer beicinho de beijo, depois de a pessoa que estamos a cumprimentar se ter libertado do cumprimento antes do tempo. Eu bem sei o que isso é. Nos meus tempos de Bélgica, aprendi à força que não é, realmente, no meio que está a virtude. O que para nós se convencionou num perfeito número par que invoca uma união entre duas pessoas, é para eles ímpar, ou um ou três, como que para mostrar que quem inicia o cumprimento é que tem a última palavra – ou beijo – a dizer. Coerentemente, quando vem o primeiro e depois o segundo, terá de vir o terceiro, coisa que eu aprendi à custa de muito embaraço. Para quem saiba do que falo, vêm-me à memória umas deixas dos Monty Python que dizem assim:

“(…) then shalt thou count to three, no more, no less. Three shall be the number thou shalt count, and the number of the counting shall be three. Four shalt thou not count, neither count thou two, excepting that thou then proceed to three. Five is right out.”

É uma cena de um filme em que um cavaleiro, depois de fazer uma coisa — o quê não interessa aqui, ide ver o filme para descobrir —, é instruído no sentido de contar até três, nem mais, nem menos. Será esse o número até ao qual ele contará e o número da conta será três. Não deverá ele contar até quatro, nem até dois, exceto no caso de depois prosseguir até ao três. Cinco, está simplesmente fora.

Falando de humor, quase que dava vontade de ver alguém, mais ousado e mais acutilante, a agarrar a mão do Papa Francisco com força e a beijar-lhe, efetivamente, o anel.

Ao imaginar isto, vi a Matilde, a minha filha, à minha frente, ainda com apenas uns meses, a seguir a chupeta com os olhos enquanto a Ana, a mãe, lha chegava à boca para depois fugir com ela para longe. A certa altura, a bebé lá conseguiu antecipar o movimento da mãe e arrancar-lhe a chupeta da mão, metendo-a na boquita com força. A parte melhor foi o momento em que ela, antes de começar a chuchar veementemente, ficou parada, com os olhos escancarados, com a mão a segurar a chupeta dentro da boca, a olhar para a mãe, como quem diz, “apanhei-te”!

Voltando então ao tema em questão. O que terá, então, motivado o Papa a tomar esta atitude — que, com muita probabilidade, deixou alguns dos que lhe queriam mostrar a reverência devida com aquela incómoda sensação de calor que surge quando muito os vasos sanguíneos da face se dilatam?

Há, pelos vistos, opiniões diversas — veja-se o título. Deixemos o imperialismo e noções que lhe são familiares para o fim.

De acordo com o Público (n. r. 2), num artigo em que Filipa Mendes fala de outros, a questão foi meramente prática. Era só um modo de agilizar o processo, informação que está ligada a um outro artigo[5], onde se diz também que nem São João Paulo II nem Bento XVI gostavam de tal prática por motivos de demoras, sendo que até avisavam as pessoas nesses termos. Presumo que se houvesse imagens de estes dois papas a fugir com a mão de quem a está a agarrar, como se estivesse a jogar à sardinha, a teriam mostrado. Talvez tenha sido com inspiração nesta informação, não é claro para mim, que James Reynolds, um correspondente da BBC em Roma, terá apresentado a tal proposta da pressa.

Mais estranha, mas de um modo até divertido, é a ginástica argumentativa com que um sacerdote italiano, Mauro Leonardi, explica o sucedido (n. r. 3). Seguindo o seu ponto de vista, depreendo que, para ser delicado, eu deveria fugir com a cara à boca da minha filha se ela me quisesse dar um beijo à frente dos seus colegas da escola. Sim. É precisamente isso. O motivo que levou o Papa a fazer o que fez foi ilustrado por este padre com uma situação em que uma adolescente prefere não ser cumprimentada pelo pai quando este a acompanha à escola. O que acabo de dizer não encaixa com o que disse antes neste parágrafo? Pois é daí que vem a ginástica e a diversão.

Mas em que é que ficamos, então? Foi pressa ou delicadeza?

Seria mais fácil abstermo-nos de julgamentos subjetivos e dizer o que, de acordo com um artigo do Observador (n. r. 4), referiu um assessor do Papa: “Às vezes ele gosta [que lhe beijem a mão], outras vezes não. É tão simples quanto isso”.

Finalmente, e tomando um tom mais sério, de acordo com a Aleteia (n. r. 1), a atitude do Papa é compreensível por motivos de coerência ideológica. Segundo se entende, para o autor do artigo, Ary Díaz, o beijar a mão está associado com “o clericalismo e o servilismo do catolicismo de salão”: coisas que o Papa denuncia. A isso se junta que esta prática tem a ver com a monarquia. Há também a ideia de rebaixamento pelo meio. Daí não gostar de tal prática.

Ora, depois de ler o artigo que acabo de referir, publiquei no Facebook as seguintes considerações:

“Circularidade e tristeza

Pôr ao mesmo nível o que seria a reverência por um monarca civil e aquela que se manifesta por quem está em linha sacramental com São Pedro é das coisas mais redutoras que, na minha opinião, se podem fazer. Mesmo que o ato seja igual, o significado não é. Seria o mesmo que dizer que como se beija a mão ao monarca em submissão, é também isso que eu faço quando beijo a mão da minha mulher ou da minha filha. Beijar a mão a alguém tem um significado que só se pode interpretar juntando o ato em si e quem está envolvido nele.

Parece-me haver uma grande confusão acerca do significado que as coisas têm. Há um artigo a explicar que isto tem a ver com o clericalismo, servilismo de catolicismo de salão, monarquia e rebaixamento. Não consigo entender. Mostrar reverência é rebaixar-me? Querer beijar a mão ao Papa é ser-se católico de salão? É servilismo?

Tudo é que sinal de divino na terra está a desaparecer para dar lugar ao que de apenas terreno tem. E já que é apenas terreno, é mau e sinal de abuso de poder humano. Por isso é para abandonar. Mas o que se está a abandonar é o que de divino há na terra.

Tinha vontade de dizer que se não se quer que se beije a mão ao Papa, que eu então também não quero, como diria se de outra qualquer pessoa se tratasse. Mas não consigo. As mãos dele são, realmente, especiais. É com elas que ele, simbolicamente, pode ligar e desligar as coisas que também se ligam e desligam no Céu. É esse símbolo que se está, também, a beijar.”

Metonimicamente, sinto-me protegido de observações no sentido de me acusarem de estar a falar de mão quando deveria falar de anel. O anel põe-se num dedo que, por sua vez pertence à mão. Está, então, a metonímia explicada: a mão pelo anel.

Pouco depois de ter publicado este comentário, usando um argumento semelhante ao de Austen Ivereigh[6], biógrafa do Papa, um amigo respondeu que isto eram reminiscências do imperialismo romano assim como outras que também teriam contaminado a Igreja. Dizia, também, que a reverência não é um ato natural nos dias que correm[7]. Infelizmente, esta última observação é verdadeira. É também por isso que muitas pessoas não se ajoelham na Consagração. 

Mas o que mais me incomoda é que, para justificar os atos do Papa Francisco, seja necessário denegrir quem não se deixa levar pelo que é natural nos tempos que correm e se mantém fiel às tradições, incluindo aquelas que Papas anteriores aceitavam. Porque é que é preciso implicar, com tanta frequência, que com o Papa Francisco no Papado é que a Igreja está bem e que antes estava má? Será impossível elogiar o Papa atual sem ter de diminuir outros — papas e não só? 

Se alguém louvar os que não se importam que lhes beijem as mãos porque têm a humildade suficiente para não considerar que é a eles que a estão a beijar mas sim à dignidade divina do seu cargo, tenho a certeza absoluta, absoluta mesmo, que se levantariam vozes a considerar que tal afirmação era uma ofensa ao Papa por estar a implicar que ele não é humilde. Mas que isso não se faça. E que não se faça porque justificar o que se faz apresentando a motivação para isso é diferente de justificar o que não se faz apontando a motivação para que se fizesse. 

Pelo contrário, de acordo com a defesa que a Aleteia apresenta, esta atitude do Papa sugere, de um modo afirmativo, que quem permitia, ou permite, tal prática é conivente com atitudes que se associam a servilismo e reverência monárquica ou até imperialismo romano — sendo estes vistos como algo negativo. Pois eu acho que quando São João Paulo II, ou São João XXIII ou Bento XVI deixavam que lhes beijassem a mão, em nada se estavam a associar com imperialismos. Apenas se conseguiam diminuir para dar lugar ao motivo que leva às pessoas quererem beijar-lhes a mão, não por se rebaixarem, mas por devoção. E que fique claro que com isto não estou a julgar os motivos que levaram o Papa Francisco a fazer o que fez. Pelo contrário, ao elogiar aquilo que é, também de acordo com a Aleteia[8]— mas apontando para outro sítio[9]— uma simples consequência lógica do modo como se formaliza o sacramento da ordem, estou apenas a constatar o que, para mim, é óbvio em relação a quem o permite. Quanto mais secularizado está o mundo, mas se deveriam reavivar as práticas que demonstram a reverência pelo que de divino há por aqui. Mas o que fazemos é o contrário.

Quanto ao imperialismo romano, para terminar, não deixa de ser interessante pensar que, seguindo o raciocínio, a prática teria nascido precisamente numa altura em que as reverências passaram a ser devidas a quem não era o imperador, coisa que implica uma grande humildade por parte, precisamente, dos imperadores.

Bom fim de semana!

Pedro

P.S. Quase me esquecia de dizer que, afinal, já se sabe porque é que o Papa fez o que fez. Foi uma questão de higiene[10]. Lá se vão as altas teorias ideológicas pelos canos. Estarão os que o defenderam em termos de altas motivações sociopolíticas desiludidos? Ou vão os argumentos mudar e continuar os contorcionismos?


[1]https://pt.aleteia.org/2019/03/26/por-que-o-papa-nao-gosta-que-beijem-seu-anel/

[2]https://www.publico.pt/2019/03/26/mundo/noticia/polemica-anel-papa-francisco-afinal-nao-parece-1866937?fbclid=IwAR2okoGDbHb6HwCt4pieuMF5uijKfohKHhYa3xTUzAvcBcHI6uizUHc-Rs4

[3]https://www.agi.it/blog-italia/idee/baciamano_papa_loreto-5216771/post/2019-03-27/?fbclid=IwAR37960qOS1Iio-fMuTDKvyEy-Se_nFxdFSTAi1CvdwW_MrKe3Bmp2EZHbM

[4]https://observador.pt/2019/03/27/porque-e-que-o-papa-francisco-nao-deixou-que-lhe-beijassem-o-anel/

[5]https://www.reuters.com/article/us-pope-kiss-ring/to-kiss-popes-hand-or-not-enters-the-catholic-culture-wars-idUSKCN1R71XG

[6]Veja-se o artigo do Público já referido.

[7]Na verdade, o padre Leonardi (n. r. 3) também escreve em termos parecidos, noutro ponto do seu artigo.

[8]https://pt.aleteia.org/2017/05/18/por-que-algumas-pessoas-beijam-as-maos-dos-padres/

[9]http://es.catholic.net/op/articulos/55530/cat/13/por-que-besar-las-manos-de-un-sacerdote.html

[10]https://www.dn.pt/mundo/interior/papa-francisco-justifica-fim-do-beijo-na-mao-com-higiene-10735820.html

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