A Verdade e os Dream Theatre (Sobre a existência de uma única Verdade.)

Há umas semanas, um amigo disse-me algo que descreveu que nem uma luva — se é que me entendem — o que se passa comigo relativamente aos estudos. O que ele me disse veio depois a ser confirmado frequentemente, também com efeitos retroativos: comecei a reparar que digo com muita frequência que talvez possa estar enganado em algumas coisas que penso e a até a admitir que disse disparates. Talvez isto possa parecer estranho para muitos daqueles com quem falo. Na verdade, isto acontece muito, como já disse, mas com um grupo bastante restrito. E o motivo é simples: quando falamos, discutimos, estudamos, temos o mesmo objetivo, um que não é possível abandonar uma vez que nos apontamos na sua direção — a Verdade. O que esse meu amigo me disse foi precisamente isso: que quando apontamos na direção da Verdade, ela não nos larga, sempre a puxar, sempre a corrigir o trajeto, como se nos atirasse o dedo indicador para a seguir o dobrar, virado para cima, em sinal de chamamento.

Já lá vamos aos Dream Theatre.

O pressuposto de que há uma Verdade, e apenas uma, leva a que ela seja absolutamente necessária. Tudo o que não seja isso não é, pelo menos na sua totalidade, verdadeiro, e por isso não chega. E preciso de dizer que aquilo que acabo de escrever é uma daquelas concessões que não me agradam nada. Não é lógico dizer que algo não é, apenas, totalmente verdadeiro. Ou é ou não é. Basta que eu esteja um bocadinho de nada doente para já não poder dizer que estou saudável. Se eu for um bocadinho de nada doente, não sou saudável. Se eu for apenas 1% infiel, já não sou fiel. De certa maneira, o que quero com isto tudo é também justificar o facto de ser chato, ou maçador, vá — não, chato mesmo — por causa dessa busca. Desculpem-me.

Por outro lado, a partir do momento em que se começa a defender a coexistência de múltiplas verdades, ou que a experiência é construtora de verdade, ou que esta depende daquela, ou que aquela — a Verdade, ou a certeza acerca dela, pedida e recebida — é inimiga do conhecimento porque bloqueia a mente e fecha a abertura ao que é diferente, ou até que, agora entrando no campo de estudo a que me ando a dedicar, a Verdade é inimiga da Fé e da Teologia — a partir desse momento —, pode cair-se num relaxamento intelectual que, esse sim, é inimigo da Verdade, já que não torna urgente a nossa adesão a ela. No fundo, é a elevação da dúvida a um estado de superioridade intelectual. Que se digam e defendam estas coisas em ambientes de irreligiosidade é até compreensível, mas que sejam católicos a fazê-lo já se torna mais difícil de apreender. É para os meus irmãos na Fé que me dirijo diretamente e, indiretamente, para todos os outros que me possam ajudar a tornar o que quero dizer mais evidente.

Que a Verdade é inimiga do conhecimento, ou que a certeza é inimiga da Verdade, ou que a certeza é inimiga do conhecimento, ou quaisquer outras variações que impliquem que conhecimento, Verdade e certeza não devem andar absolutamente interligadas numa intimíssima relação, são proposições que eu não posso, de todo, aceitar nem reconhecer como empiricamente verificáveis. Poucas coisas haverá mais aliciantes e, por isso, haverá sempre a necessidade de aprofundamento, de melhor entendimento, de ver como perspetivas diferentes poderão, também elas, ajudar nessa imersão. Já o defender a multiplicidade de verdades é, em si mesmo, um alto entrave, visto estar-se a determinar, à partida, que não pode haver um alvo objetivo a atingir. E nem em relação às posições que divergem da que estou a defender — a qual assume a objetividade da Verdade —, nem quanto a essas a mente fica fechada, pois, pelo menos para mim, o partilhar com todos o que é Verdadeiro é, também, uma imposição. Afinal de contas, Cristo apresentou-se como sendo a Verdade, palavra intermédia entre o Caminho e a Vida, e pediu-nos, por meio dos apóstolos, que O levássemos a todos. O que não pediu foi, de modo algum, que víssemos as verdades dos outros com igual valor. Por outro lado, se se observar que quem defende a dúvida também anda a espalhar essa teoria e que, por isso, também eles sentem a necessidade de levar o que pensam aos outros, vale a pena lembrar que, ao contrário daquilo que faz quem assume a existência da Verdade, não se aponta na direção do que é externo, do que não nos pertence, nem a mim nem a ti, do que não é a nossa ideia mas sim do que aprendemos. Pelo contrário, recomendam-se as próprias opiniões. Nada, nada mesmo do que estou para aqui a dizer, é meu. Mesmo quando uso “penso”, ou “creio” ou o que quer que seja, apenas estou a fazer meu o entendimento do que de maravilhoso a Igreja, como continuidade de Cristo na História, me ensina. É a diferença entre “a Igreja ensina assim e eu faço minha a Sua opinião e estou a dar-ta a ti” e “a Igreja ensina daquela maneira, mas eu tenho outra opinião e estou a dar-ta a ti”. As minhas opiniões, para serem interpretadas como eu as realmente vejo, devem sempre ter o entusiasmo e a sensação de realização de uma descoberta a cobri-las. Serão, também, provavelmente sempre descobertas que não o são realmente, já que nada de original têm. E se alguma coisa eu disser que contradiga o que já antes tinha sido reparado por inspiração do Espírito Santo, peço a verdadeira caridade de mo apontarem. Assim que o confirme, será imediatamente abandonado. 

Vive-se, então, numa época em que é frequente verem-se católicos a defender que devemos questionar e questionar aquilo em que acreditamos, incluindo o que foi divinamente revelado e reconhecido como tal: os dogmas. Confunde-se respeito pelas convicções dos outros com a aceitação dessas convicções como igualmente válidas. Confunde-se respeito com uma espécie de simbiose e pensa-se que esse “ser-se um só” com o outro implica uma totalidade que, naturalmente, é contraproducente. Devemos ser um só porque juntos em Cristo, não noutra coisa qualquer. Não estamos a falar aqui de decidir o que fazer depois de jantar. Estamos a falar daquilo que, em última instância, salva ou condena. Uma coisa — o respeito pelas convicções dos outros — não necessita da outra — da aceitação delas. Respeitar as ideias dos outros obriga a que elas sejam levadas a sério, a que sejam consideradas tendo em conta os seus próprios fundamentos, mas isso sem haver misturas com as minhas, ou deixariam as outras de ser as do outro e as minhas de me pertencerem. No fundo, já que há apenas uma Verdade — estou a falar, naturalmente do meu ponto de vista — e se alguém me apresenta algo como sendo verdadeiro, eu tenho a obrigação de tentar perceber se sou eu quem está errado. Se estiver, nada perco, porque ganho mais um passo na minha busca, se não me parecer que estou, nada perco também, por motivos óbvios. Quanto ao outro, o mesmo raciocínio aplica-se. Acolher a ideia do outro como se fosse a minha, acolher a Fé do outro como se fosse a minha — Fé não, crença, porque a Fé, pelo menos a teologal, implica adesão à Verdade como diria o gigante Ratzinger — fazer isso, é estar a apropriar-me do que ainda não é meu, ou que talvez até nunca venha a ser, e é ao mesmo tempo estar à espera que o outro também o faça, coisa que tem igual desvantagem. Quando se trata da Verdade, não devia haver contaminações. Foi precisamente isto que se passou comigo. Eu não adaptei nada a mim. Nada que era de outro. Adaptei-me — ou vou-me adaptando o melhor que consigo —, à Verdade na medida que os meus limites o vão permitindo.

Agora, como católico, há regras essenciais a seguir. Por exemplo, há verdades — o plural é intencional — que para mim são, por motivos de Fé, inabaláveis. E uma delas é a de que há apenas uma Verdade — todas as outras que com ela se relacionem são perfeitas vertentes dessa que aqui escrevo com V. Outra é a de que a Igreja Católica é a sua única detentora. Embora muitos possam dizer que aceitam estas premissas tanto quanto eu, e realmente o façam, muitos outros o dirão sem que assim seja. Uns breves dedos de conversa o mostram imediatamente. Ao relegar para segundo plano qualquer ponto integrante dessa única Verdade, dificilmente se poderá manter, em consciência, a sua total integridade, já que se começam a introduzir opções pessoais sobre o que é, ou não, Verdadeiro. De um modo muito cru, já não se está a falar da Fé Católica, mas de uma outra crença, visto serem esses os contornos que a definem. Sem reconhecer a infalibilidade da Igreja no que diz respeito à doutrina de salvação, por exemplo, será impossível manter tudo o que dela veio. E aceitando incondicionalmente que a Igreja é assim, não será então coerente fazer escolhas parciais. Ou então, admitindo a possibilidade de, por vezes, ser difícil distinguir entre o que é, ou não, magistério infalível, pelo menos que haja um grande processo de discernimento, mas sempre no sentido de vir a aceitar aquilo com que não se concorda. À medida que os séculos vão passando, todavia, tal necessidade vai-se tornando cada vez menos presente. Por isso, defender, por exemplo, que deveria ser a Igreja a mudar a sua linguagem relativamente à dúvida, e à sua relação íntima com a heresia, de modo a que passe a acomodar aquilo que alguém pense, talvez fizesse sentido no tempo de Inácio de Antioquia, mas não agora, altura em que o que se diz sobre o assunto já é o resultado de dois milénios de evolução teológica. Se o fizermos, se alimentarmos a dúvida, estamos a entrar num caminho deveras contraditorio.

É verdadeiramente curioso, por isso, que eu me veja mais frequentemente a discutir os méritos destas afirmações com católicos do que com quem não o é — que há apenas uma Verdade e que sua integridade apenas subsiste na Igreja Católica. Um ótimo exemplo de contexto em que tenho total liberdade para falar sem nunca abandonar estes pressupostos, é a conversa ecuménica — realmente ecuménica — que tenho vindo a desenvolver com dois grandes amigos protestantes, uma calvinista “até aos ossos da alma” e um sem filiação a uma igreja em particular. Eles podem não concordar com o que lhes digo, mas não estaria a ser honesto com eles, nem a ser realmente seu amigo, se não tivesse como objetivo claríssimo que eles viessem “para Casa”. E para o fazer, tenho necessariamente que tentar perceber, do modo mais claro que consiga, os seus pontos de vista. Tenho de aprender o que eles me dizem. Tenho de tentar encontrar o que é comum para ser mais fácil puxar por um ponto a que eles próprios já estejam agarrados. Mas nunca, nunca mesmo, pensando em tratar o que me dizem como sendo meu sem que antes o teste e teste e teste e contraste com o que a minha intuição me diz, com o que a Igreja ensina, com o que a Fé me faz crer. Só assim se poderá conversar. E eles fazem, penso eu, o mesmo em relação a mim. Tem sido horas realmente notáveis, pelo menos no que ao meu lado diz respeito, de aprofundamento do que de mais maravilhoso há. Queremo-nos bem, logo queremos o que de melhor há para o outro.

Em nada quero implicar — não quero mesmo — que quem não faça isto não queira bem aos outros. Apenas estou a mostrar o meu raciocínio. Se eu, que penso assim, o fizesse de outro modo, seria hipócrita.

Do outro lado, aquele em que a dúvida é elevada a coisa alta, surge um paradoxo evidente, já que não se questiona a própria teoria de que a dúvida é boa. Nem isso se poderia fazer, já que isso acabaria por resultar no recomendar de uma linha de pensamento sobre a qual não se está convicto. Também não se faz o esforço de aceitar quem defende que o seu ponto de vista está errado. O motivo para isto poderá ter a ver com o problema que surgiria ao se levantar a hipótese de se poder estar, realmente, errado, já que toda a teoria cairia por terra. Defender a dúvida acaba por exigir, pelo menos, uma certeza, coisa que é autodestrutiva. O que me faz a mim considerar que tal perspetiva não é certa é, precisamente, o facto de ser contraditória e redutora. A minha não é: ela defende-se a si própria por meio da lógica, da razão, e da Fé. Curiosamente, obriga-me a tentar perceber os motivos que levam a aceitar tal ideia. Eu posso não abandonar a convicção de que há uma e apenas uma Verdade e que a Igreja é a única detentora de tal Verdade, mas isso não implica em nada que não possa estar tremendamente enganado nas minhas interpretações acerca do que os outros estão realmente a defender. E nunca sei até que ponto é que ouvir o outro lado me poderá levar a um melhor entendimento. É para isso que estudo e debato. Não para (me) convencer de que eu tenho razão — já que posso não estar certo —, mas para que seja possível discutir e aprofundar os temas. Quanto à dúvida, não se pode pô-la, a ela, em causa, ou tudo desmorona. É contraditório.

É. Não há medo nenhum em estar errado. A razão leva a uma sequência de aceitações que incluem aceitar, também, que há apenas um Caminho, uma Vida e uma Verdade (mudei a ordem para terminar com a palavra óbvia). A partir daí, é estar sempre a perseguir o modo de se lá chegar. E é nessa estrada que os enganos abundam. Venham eles. Graças a Deus, há alguns milhares de anos de gente notável que partilhou da mesma obsessão. É a esses que eu vou buscar inspiração. E o James Labrie parece dar voz a um colega (penso que foi ele a escrever a letra da música dos Dream Theatre que aqui vou citar, mas posso estar enganado).

Na canção “The Spirit Carries On”, do álbum “Metropolis, Pt. 2: Scenes From a Memory”, a certa altura, canta-se assim:

“I may never find all the answers
I may never understand why
I may never prove
What I know to be true
But I know that I still have to try”

Traduzindo de um modo livre, a ideia é que “talvez eu nunca encontre as respostas todas, talvez eu nunca entenda o porquê, talvez eu nunca consiga provar o que sei que é verdade, mas sei que, mesmo assim, tenho de tentar”.

É mais ou menos isso.

Deus vos abençoe!

Pedro

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