A minha consciência não me larga. É como se a sentisse a morder-me um calcanhar e a puxar-me, ora para trás, ora para o lado, e a rosnar. Em paralelo, sinto-me cobarde e preso a um certo medo — certo não, bem concreto e específico — de que dizer o que quero dizer seja visto como um ataque: não é; como uma afronta à autoridade do Santo Padre: não é; como um desejo orgulhoso de fazer barulho: não é; como falta de amor à Igreja: não é. E é precisamente por causa deste último que a minha consciência não me larga o calcanhar, a puxar e a rosnar. Enquanto estou a escrever aqui, vejo estas duas linhas de pensamentos a unirem-se numa só e a anularem-se uma à outra. Tentarei ser o mais breve e claro possível, dizendo precisamente o que sinto que devo dizer e tentando fazê-lo de um modo que deixe transparecer que aquilo de que se trata é, apenas, amor à Igreja. Causa dor — o digo com toda a honestidade — ter por vezes que contrabalançar o que dizer ou não dizer por saber que, falando, terei obrigatoriamente que dar mais peso ao depósito da Fé da Igreja do que às opiniões de quem quer que seja, por mais alto na hierarquia eclesiástica esteja. Também por isso, se estiver enganado, e se mo mostrarem, ficarei genuinamente feliz. Isto já aconteceu muitas vezes antes. Mas basta de preâmbulo.
Quando, aqui há umas semanas, comecei a ler sobre a visita do Santo Padre a Abu Dabhi no passado dia 4 de Fevereiro, fiquei um tanto incomodado com algumas notícias e pensei, imediatamente, que a imprensa não estaria a contar as coisas como elas eram — o que é muito comum —, e a forma mais simples de ficar esclarecido foi ler o documento. Na altura, apenas o consegui encontrar em Inglês e não foi no sítio do Vaticano, por isso preferi esperar até ter acesso a uma fonte mais fiável. Neste momento, ele já está disponível em https://w2.vatican.va e, também por isso, já me sinto mais à vontade para escrever. Refiro-me, naturalmente, ao “Documento sobre a Fraternidade Humana em Prol da Paz Mundial e da Convivência Comum”(1).
Sinto que tenho de afirmar, embora o faça, apenas, para me defender de acusações no sentido de só estar a prestar atenção ao negativo — coisa que não é verdade —, que considero que quaisquer esforços que se façam no sentido de aproximar os povos da paz, da concórdia, e, também por meio delas, de Deus, são extraordinários em valor. Sobre isso, acho notável o alcance que o Papa Francisco atinge. Às vezes até me interrogo — e isto é, como será óbvio, apenas uma insignificante opinião — se certas opções pastorais que o Papa toma, ou certas afirmações que faz, não serão, até mesmo para si, dolorosas de tomar e afirmar graças à incompatibilidade que existe entre elas — por vezes de inegável verificabilidade — e o que a Igreja sempre ensinou e defendeu. Digo isto referindo-me, principalmente, a questões que se relacionam diretamente com a soteriologia. Porque o faz? Quanto a isso não posso, naturalmente, responder. Aceito no coração a possibilidade de serem opções que, na sua consciência, o Papa toma com o intuito de diminuir as desigualdades, as tensões, as guerras e as injustiças. Talvez o Santo Padre confie que a misericórdia de Deus não se mostrará ríspida com aqueles que, por amor a si, se unam ao seu esforço e, mesmo que por vezes indo contra o que antes era ensinado, o façam com um coração cheio de confiança e consciência tranquila. Talvez o Santo Padre deixe nas mãos de quem o ouve, ou no próprio futuro da Igreja, a correção do que de menos bom ou confuso possa advir, confiando, também, nas suas consciências. Entretanto, o que de bom surgir, será, naturalmente, bom. Deus, afinal, é quem mais consegue aproveitar tudo o que de bom há. Por tudo isto, e talvez apenas derivado de um desejo imenso, mais que isso, à convicção de que o Papa está a agir do modo que pensa ser o mais correto, e mais útil, para a salvação de quem olha para ele como pastor, gosto de pensar que não se importa ou talvez até aceite de bom grado que se lhe façam críticas — críticas naturalmente fundamentadas e com um propósito puro —, desde que elas, as críticas, sejam claramente feitas por amor à Verdade revelada e à Fé dos Apóstolos, demonstrando assim um zelo, da parte dos quem as lança, que transcende todo o amor que possa haver por si, como pessoa. Independentemente do que se possa pensar, é precisamente assim, com zelo, que eu o faço.
Diz, então, o documento, que “O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos” (recordo que a ligação para o texto completo está abaixo). Para contextualizar um pouco melhor a expressão que me inquieta, viz. “desígnio divino”, especialmente porque associada a “pluralismo” e “diversidades de religião”, vale a pena mostrar que, nas traduções francesa, espanhola, italiana e inglesa se usa, respetivamente, “volonté divine”, “voluntad divina”, “volontà divina” e “willed by God”. Está-se, portanto e claramente, a afirmar que o pluralismo religioso e diversidade religiosa são uma manifestação da vontade de Deus para a humanidade. Como poderá ser?
Será um salto lógico com pouco fundamento assumir que tal proposição inclui, entre outras religiões, o Islão, que, naturalmente, nega a divindade de Cristo?(2) Como poderá ser considerado que é vontade de Deus, Jesus intrinsecamente incluído, que haja religiões que O negam a Si mesmo? Repare-se que isto é apenas válido para uma religião que tenha sido fundada pelo próprio Deus, motivo pelo qual não me espanta que outras religiões defendam, ou não se sintam diminuídas relativamente à Verdade, ao proporem semelhantes ideias. Mas o Cristianismo foi fundado pelo próprio Deus encarnado, característica que, por si só, não deveria permitir que esta religião se ponha em pé de igualdade com as outras.
Será interessante notar como, em 2000, na declaração da Congregação para a Doutrina da Fé Dominus Iesus(3), o então prefeito Cardeal Ratzinger explicou que, sendo a fé “uma adesão pessoal do homem a Deus; ao mesmo tempo e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou”, pelo que é necessário “manter-se firmemente a distinção entre a fé teologal e a crença nas outras religiões”, as quais consistem numa “experiência religiosa ainda à procura da verdade absoluta e ainda carecida do assentimento a Deus que Se revela”. O texto de onde estas citações foram tiradas foi escrito porque “O perene anúncio missionário da Igreja é hoje [ano 2000] posto em causa por teorias de índole relativista, que pretendem justificar o pluralismo religioso”.
Agora, que se diga que a busca da Verdade é algo que Deus inscreve no coração da humanidade, e que, por isso, e por motivos que não caiam na sua esfera de vontade livre e consciente, um membro de outra religião possa obter a salvação mais depressa que eu, por exemplo, é perfeitamente aceitável e expectável, até. Deus lá estará para julgar a alma de tal pessoa e de todos nós. É notável, a este respeito, o que Jesus diz aos seus apóstolos, já depois de ter ressuscitado: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado” (Marcos 16:15-16). Há, aqui, uma restrição substancial, já que a segunda parte da frase depende conceptualmente da primeira. Nós podemos, então, esperar que Deus, na sua perfeita misericórdia, acolha aqueles que não acreditam porque simplesmente não conhecem — para acreditar em algo é necessário ter conhecimento —, estado que incluirá a negação da Fé como resultado de um conhecimento errado acerca dela. Mas que seja a Sua vontade que alguém defenda que Ele, na pessoa de Jesus, não é Deus — isto, naturalmente, depois de conhecer —, é consideravelmente diferente e paradoxal. Tudo parece tornar-se mais claro se olharmos para alguns versículos do Novo Testamento, como 1 João 2:23, João 5:23, Lucas 10:16 e João 14:6, onde se lê, respetivamente, que “Todo aquele que nega o Filho fica sem o Pai; aquele que confessa o Filho tem também o Pai”, que “Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou”, que “Quem vos ouve é a mim que ouve, e quem vos rejeita é a mim que rejeita; mas, quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou” e que “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim”.
É-me realmente difícil aceitar o argumento da vontade, principalmente num contexto em que as partes que concordam divergem tão profundamente quanto à essência de Um dos seus fundadores.
(2) Destaco o Islão tendo em conta as partes que assinaram este documento. O caso dos Judeus, por exemplo, necessitaria de uma análise mais detalhada, visto o seu papel na história da Revelação.
(3) http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html