Fernando Pessoa pôs-se uma vez no lugar que é reservado a Deus. Na verdade, não é um lugar, por motivos que se tornarão lógicos umas linhas abaixo — vai depender da largura do ecrã em que isto estiver a ser lido, se estiver. De qualquer maneira, não sendo um lugar, o que seria? Encontrar palavras para descrever o que não pode ser descrito torna-se, por vezes, muito ingrato. Mas dizia eu que Fernando Pessoa se pôs, então, nesse lugar: “Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo / Serviram-me o amor (…)” — há depois considerações gastronómicas relacionadas com o modo preferencial para degustar uma dobrada à moda do Porto, mas essas transcendem o alcance intencional deste texto.
Esta ideia de que Deus está fora do espaço e do tempo remonta a Aristóteles e relaciona-se com a noção do “primeiro motor imóvel”, aquele que tudo põe em ação e que, por isso mesmo, tem necessariamente de ser externo a essa ou essas ações. Aqui vou prender-me com a questão do tempo e com a verdade teológica de que a eternidade de Deus significa a “possessão indivisível, perfeita e simultânea de uma vida sem fim”, o que implica que Ele “não se move juntamente com o tempo do mundo criado” (*1).
Já repararam na liberdade, na esperança, no ânimo, na paz de espírito, na responsabilidade, nos benefícios, no poder, até, que algo tão difícil de compreender pode trazer pelas consequências que permite? Já se aperceberam de como se podem aproveitar bem as horas do dia tendo isto em mente, mesmo sem o entender? Será apenas necessário dar o benefício da dúvida a gente como Aristóteles, Boécio, São Tomás de Aquino, São João Paulo II e fazer uma espécie de aposta de Pascal — que argumentava que se se acreditar em Deus e Ele não existir não perdemos nada, mas que se não acreditarmos nEle e Ele, de facto existir, podemos perder tudo. Agora que disse em que é que a aposta original consiste, os argumentos da nossa aposta de Pascal personalizada serão de fácil dedução, assim eu escreva o motivo para achar que isto de Deus estar fora do tempo, como o restaurante de Fernando Pessoa, traz liberdade e todas aquelas outras palavras. E o porquê é muito simples: podemos rezar e pedir a Deus que incorpore no Seu plano eterno as nossas orações. Isto é um paradoxo? Acho que não. Só porque, para Deus, a eternidade é um perfeito agora, isso não quer dizer que tudo já esteja resolvido. Ele vê tudo num instante magnífico, mas nós sabemos por experiência que as coisas mudam onde estamos, se desenrolam, se desenvolvem, nascem, morrem. Fazermos e não fazermos será, para Deus, igualmente dinâmico, já que é algo que ocorre por aqui, e não lá, nesse lugar fora, também, do espaço. Porque não poderá Ele ser — é o que é, a essência de ser — tendo as nossas orações em consideração? Nós podemos não saber como é que as duas realidades — a nossa, temporal, e a de Deus, atemporal — se conjugam, mas sabemos que Jesus nos pediu que rezássemos ao Pai (Mateus 6:9-13); sabemos que São Tiago nos falou do poder da oração (Tiago, 5:16); e temos São Paulo a dizer que nem a morte pode separar os membros do corpo de Cristo (1 Coríntios 12:27 e Romanos 8:35-39). Temos isto, e muito mais. Poderemos não entender, repito, como é que estas coisas se… — é difícil escrever sem gestos; estou a fazer aquele em que usamos as duas mãos abertas, com os dedos ligeiramente afastados uns dos outros, e as juntamos, encaixando os dedos de uma mão nos espaços entre os dedos da outra e depois as apertamos juntas — podemos não saber nada, mas temos à nossa disposição uma multidão de exemplos a seguir e a imitar.
O meu avô materno morreu há precisamente 8 anos. Poderia falar também dos meus outros avós, bisavós, e todos, literalmente, todos aqueles em que me apetecer pensar, com a exceção dos santos, já que o esforço seria um tanto em vão, no melhor dos sentidos. Mas como hoje é hoje foco-me no meu avô. É verdadeiramente bom saber que tenho toda a minha vida à disposição para poder rezar por ele, para lhe atirar amor, para desejar que ele vá depressa para a morada que Cristo lhe foi preparar (João, 14:1-4), e para pedir que as roupas velhas e cheias de lama que ele tenha no corpo da alma (*2), lhe sejam despidas com prontidão e que o fogo purificador interior, de que Santa Catarina de Génova fala (*3), queime com um combustível de rápida aceleração. Na verdade, a nossa oração poderá ser o catalisador que vai agilizar a eliminação dos resquícios de matéria impura que tenham ficados impregnados na alma de por quem rezamos. Mas, principalmente, tenho a certeza de que nada do que pedir chegará a Deus tarde demais. Ele não tem tardes nem cedos.
Termino, por isso, acrescentando uma nova palavra à lista com que iniciei um dos parágrafos acima: obrigação. Pois, como Bento XVI perguntaria, “Quem não sentiria a necessidade de fazer chegar aos seus entes queridos, que já partiram para o além, um sinal de bondade, de gratidão ou mesmo de pedido de perdão” (*4)? Não somos nós obrigados a fazer o que é necessário?
Pedro
*Textos referenciados:
- São João Paulo II, Audiência Geral de 4 de Setembro de 1985 (http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1985/documents/hf_jp-ii_aud_19850904.html).
- S. Lewis, “Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer”, Letter 20 (https://gutenberg.ca/ebooks/lewiscs-letterstomalcolm/lewiscs-letterstomalcolm-00-h.html#chapter20).
- Bento XVI, Audiência Geral de 12 de Janeiro de 2011 (http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2011/documents/hf_ben-xvi_aud_20110112.html#).
- Bento XVI Encíclica Spe Salvi (http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi.html).